Sempre acreditei que para melhor conhecer o outro lado há que se praticar empatia.
O filósofo alemão
Theodor Lipps, criador do conceito de empatia, defendia ser primordial uma “resposta afetiva vicária a outras pessoas, ou seja, uma resposta afetiva apropriada à situação de outra pessoa, e não à própria situação”.
Este conceito cria certos requisitos para a melhor compreensão do processo. É preciso saber perceber e sentir efetivamente os reflexos e a derivação integral de determinado problema alheio. É determinante que se tenha algum conhecimento ou seja possível visualizar vínculos emocionais que propiciaram determinada situação que se quer compartilhar através de uma atitude de empatia.
Sem saber traduzir aquilo que faz outra pessoa expressar sentimentos, é quase que humanamente impossível se chegar a alguma conclusão, mesmo tendo o maior dom de penetrar no mundo alheio, colocar-se de corpo e alma no universo do semelhante e, de lá, com ótica desprovida de qualquer influência pessoal, mover-se em sua própria direção sem dela ter saído.
Mas não é exclusivamente este tom filosófico que me faz ter vontade de escrever estas mal traçadas linhas. É, também, minha total ojeriza auditiva para certos vícios de linguagem a que estão submetidas as gerações mais recentes de praticantes da surrada língua portuguesa.
Sou amante da nossa língua. Tudo que aprendi a respeito dela me fez acreditar que se trata de uma das mais belas do mundo, que é dos idiomas onde existe a maior amplitude de expressão. Com o português é possível empreender construções fantásticas, tanto através da sua expressividade natural, forjada dentro das suas regras básicas e do vocabulário adequado, quanto pelas vias dos seus artifícios gramaticais mais elaborados onde se apresentam figuras de linguagem que nos fazem trabalhar o raciocínio lógico.
Voltando ao objeto da empatia, o mesmo filósofo citado acreditava que o processo existia para indicar a relação entre o artista e o espectador que projeta a si mesmo na obra de arte. Aqui fica consagrada, no caso, a necessidade de ampla interpretação do sentimento do artista. Para que se formule a captação é necessário, então, projetar em nós mesmos, os resultados de algo.
Confesso, não consigo empatia suficiente para entender certos vícios mais frequentes em nossa linguagem moderna, a exemplo da ‘expressão definidora do NADA, do vazio de comunicação’ que representa a tentativa de alguém praticar essa múltipla e intolerável repetição da palavra “tipo” dentro das suas frases, sem completar com alguma coisa a comparação que tal vocábulo evoca.
Inúmeras vezes, sem qualquer resultado compreensivo, tentei analisar gramaticalmente tal fenômeno. Depois tentei rever estudos de códigos da linguagem falada e não encontrei justificativas. Então coloquei a língua em plano secundário e arrisquei o processo empático. Foi pior. Até porque o uso desta palavra vem sempre acompanhado de reticências, o que torna ainda pior a emissão de qualquer conceito a respeito, porque não se sabe o que o vivente gostaria de ter comparado ao sujeito e demais componentes gramaticais da sua frase. Ou seja, tudo que foi dito antes do “tipo” poderia ter sido dito, até talvez com maior clareza, com a imediata adição do complemento utilizado.
Assim, não há processo empático que resolva, até porque não existe nenhuma identificação que faça acontecer aquela ampla interpretação do sentimento do artista. Não há obra. Há um vácuo, um precipício linguístico, um buraco na comunicação que promove o divórcio da originalidade que se reprime com a falta de qualquer elemento comparativo, imprescindível para que, a exemplo de um aposto, o vocábulo “tipo” produza certo efeito. Na linguagem falada contemporânea, principalmente dos mais jovens, “tipo” é um intruso. Parece um pedido inconsciente de socorro, ou de licença momentânea para se poder rapidamente pensar em como vai se concluir aquilo que “se pensa saber dizer”.
Parece-me um vício terrível. Como ter que dar mais uma tragada no cigarro que inconveniente acompanha a conversa. As reticências e a carência completa de sentido são as baforadas que se seguem antes do complemento da oração. Este, diga-se de passagem, na maioria das vezes nada tem a ver com aquela baforada “tipológica”. Ou ilógica.
Cada vez que ouço alguns desses jovens eu sinto vontade de corrigir ou de perguntar sobre o que está dizendo. Tenho vontade também de lhe dar um exemplo frasístico com a utilização que deveria conter o “tipo” correto. Como, “queria explicar que falar assim, parecendo dizer bonito, não é coisa para um bronco, tipo este locutor”. Mas prefiro me calar, pois óbvio que poderia ouvir um desacato. Prefiro mudar de sintonia. Já desci de um transporte coletivo lotadíssimo por não conseguir ficar ouvindo uma garota repetir sessenta e quatro vezes a palavra “tipo” em cinco minutos de conversa ao celular. Juro que fiz isto. Eu sinto pavor! E é verdade: 64 vezes, eu contei! Sim, foram cinco minutos.
É inócuo perguntar se a escola já abordou questões do gênero. Dentro do nosso sistema educacional não existem mais escolas. Talvez nem língua.
Como sempre, tenho que enaltecer e concordar com o
Ricardo Ramos Filho, meu nobre amigo escritor de livros infantis, um admirável zelador da língua portuguesa, que outro dia escreveu no
Facebook uma pérola inestimável: “
Gosto muito de gente. Sou fascinado, porém, por bocas. É de lá que saem as palavras, as primeiras coisas que observo em alguém”.