quinta-feira, 7 de maio de 2009

O plágio e a porta dos fundos

2009 - Ano IV
Posted at 12:07

Este texto é dedicado ao menino Brunno, um blogueiro de
raro talento e criatividade à flor da pele, que por tais
atributos tornou-se recentemente vítima de plágio.





A obra escrita, em sua redação original e autêntica, não nasce de uma farsa. Desde sua concepção já é portadora de identidade única – a do seu autor. Seu processo criativo muito se parece com uma gestação. Para que um dia exista e produza orgulho nessa identidade passa por um processo complexo que se reconhece dentro da arte criativa.

Este poder de criação tem que ser tratado como uma entidade, pois é produto de sentimentos, tem alma. Natural se dizer que por tal característica deva merecer respeito.

Para que tudo principie é mais do que óbvio que haja um estado de prazer. É ele quem produz a semente que é a ideia. A partir da existência desta, divulgada ou não, acopla-se o direito.

É salutar saber que a gestação da ideia requer muitas vezes uma infinidade de sacrifícios. Seu desenvolvimento, até adquirir o conjunto integral de particularidades que lhe concede aspectos típicos que hão de torná-la definitivamente reconhecível, passa por caminhos cheios de pedras. Há dores e enjoos. Algumas tem que vencer as tonturas da luta contra o preconceito, as tosquiadas das exigências culturais e certas imposições do comportamento social que a obrigam ser lapidada até o último momento. Fica fácil entender porque algumas ideias são abortadas. Seu estado bruto pode causar revoluções indesejáveis. Pode faltar para sua rigidez a compreensão do mundo.

O mais importante, convenhamos, é que seu autor não foge à luta. Ele quer ter o "filho" vivo e capaz de se comunicar na transmissão da sua essência.

A partir da primeira exibição pública, hoje em dia promovida por uma diversidade de meios, mesmo que alguns sejam perigosos, a exemplo da rede mundial, o texto cria vida a partir do seu sentido amplo, exerce seu poder de deslocamento, mas por mais invejado que seja não se descaracteriza por força do seu gene.

O texto original e bem tratado em sua concepção, com cara de gênio e reconhecidamente belo, também é capaz de produzir em sua irradiação sentimentos negativos conhecidíssimos da psique humana, como a inveja, o ciúme, o ódio, a intenção de matar exercida com transfusão de sentidos análogos ou a amputação de elementos originais.

Estes sentimentos e ações, produtos da incompetência criativa, do definhamento absoluto da racionalidade, da doença terminal da capacidade de pensar e traduzir a si próprio, aliado à vontade de sobreviver pela farsa para que não se sepultem como inúteis, sem nada a dizer, produzem o plágio.

É atitude inconcebível não somente pelo vilipêndio explícito, mas porque diferente da vida humana, o texto jamais pode ser submetido à adoção de alguém em particular. Pelo menos sem que todos saibam que um dia já teve um sobrenome imutável, bem como com o declarado consentimento de quem o fez nascer. Qualquer tentativa de descaracterização é um atentado àquela vida própria que transmite a história da sua essência, gerada na inteligência do verdadeiro autor. Configura-se em qualquer tentativa do gênero um reconhecido estado conjugado pelo verbo delinquir.

Ocorre, no entanto, que a internet bem se assemelha a uma terra sem leis efetivas ao tratamento das milhares de investidas contra o texto alheio. A guerra pelos direitos do patrimônio intelectual somente tem produzido algum resultado através do voluntarismo daqueles que compreendem perfeitamente sua natureza sagrada.

Felizmente a blogosfera, embora um matadouro das idéias alheias, embora terreno de tentativas de instalação de cartórios ilegítimos, especializados no registro clandestino de textos subtraídos, ainda conta com valorosos guardiões voluntários.

Enganam-se os plagiadores na sua inocência da falta de conhecimento do poder dos recursos da grande rede e da força que protege as boas intenções.

Após a máscara rasgada os plagiadores, ante a pobreza das suas argumentações de defesa, acabam optando por saída pela porta dos fundos, tão bem traduzida pela deleção do seu instrumento. Mesmo assim, ainda contam com um recurso muito semelhante à figura de um Ícaro falsificado: o retorno pela via do anonimato. Afinal, a rede também é pródiga em acatamento de "nicks".

Lamentável é que mesmo que isto ocorra e outros plágios se sucedam, sempre haverá, movido por circunstâncias, alguém que acredite e torne a se emocionar com nova falsidade autoral. Além dos costumeiros elogios, ainda a repassará. Looping ingrato.



AQUI há um bom resumo sobre a história do Bruno.

22 comentários:

Grace Olsson on 07/05/2009 13:31:00 disse...

Ery, o anonimato sempre é o final dessa gente que se apossa de textos alheios e sai a macular a imagem de quem nao concorda com esses disparates.
Belo texto.
Parabéns.bjs e dias felzies

Ery Roberto Correa on 07/05/2009 16:57:00 disse...

Grace, o mais difícil é a decepção que a gente sente.
Dias felizes.

Ítalo de Paula Pinto on 07/05/2009 19:15:00 disse...

Lastimável esta notícia, amigo. Fico perplexo em imaginar como a pessoa deve ser pequena ao se contentar em postar textos de outras pessoas, como se fosse dela própria. Sentiria-me uma ameba, sinceramente.

ellen on 07/05/2009 19:34:00 disse...

Parabéns ao Bruno, Ery!
e há sempre destas parvoíces de plagio nos blogs. Eles não são seguros e é muito aborrecido!

Um beijinho para si

Ítalo de Paula Pinto on 07/05/2009 19:47:00 disse...

Estou oficialmente dentro da campanha, meu nobre.

Ery Roberto Correa on 07/05/2009 20:04:00 disse...

Ítalo, foste na veia!
Vamos lá, eu estou lendo sobre essa ideia da Blogosfera Cristã e parece ser boa.
Ao aderir farei uma manifestação oficial através de um post.
Abraços.

Ery Roberto Correa on 07/05/2009 20:08:00 disse...

Oi Ellen! Foi ler o garoto? Ele tem futuro.
Outro beijo pra vc.

Luci Lacey on 08/05/2009 02:37:00 disse...

Ery

O Brunno e criativo e escreve bem.

Agora e tomar cuidado, registrar os links e continuar.

Sair pela porta dos fundos e terrivel, e como disse, e uma decepcao, fora os blogueiros que apoiaram e nos criticaram severamente.

Beijinhos

jayme on 08/05/2009 11:05:00 disse...

Conselho aceito e seguido: https://twitter.com/de_minimus

tita coelho on 08/05/2009 14:21:00 disse...

Adorei o texto Ery!
Durante todo o tempo nessa última história de plágio, várias pessoas tiveram muito desgaste. O mais triste de tudo foi ver pessoas que apesar de todas as evidências e tal... Defenderam a plagiadora e o marido destratando quem foi contra o plágio.
Bem, pelo menos a blogosfera fica um pouco mais "limpinha" . Mas te garanto que nunca vi nada igual a esse plágio! Inclusive, pessoas que já foram plagiadas defendendo a atitude da cristiane e do mário, tem cabimento? Não tem!
Abraços e ótimo teu texto!

Dora on 08/05/2009 17:02:00 disse...

Ery. Outro dia, soube desse caso de plágio, pelo blog da Grace. Ela estava indignada, e com razão.
Concordo com essa bela exposição que você fez aqui. Pareceu a fala de um advogado de defesa, com os argumentos sólidos e bem embasados.
Quando eu precisar de alguma "defesa", com problemas semelhantes, venho pedir sua ajuda...rs
E, lendo você, me veio uma idéia estranha, porque acabo de postar uam espécie de "releitura" de Guimarães Rosa, em que desenvolvo o texto, tentando criar neologismos, numa espécie de exercício de aprendizado, a partir do grande mestre.
Isso tem semelhança com "plágio"? rs Não deixa de ter...não? rs
E espero que você volte a me visitar, porque há muito não vejo seus rastros por lá...
Beijos e abraços.
Dora

Ery Roberto Correa on 08/05/2009 19:30:00 disse...

Luci, o problema que esse negócio de registrar textos dá um trabalho danado. Deveria ter um cartório online e a gente pagar a conta no fim do mês (rsrsrsrs). Abraço.

Ery Roberto Correa on 08/05/2009 19:31:00 disse...

Jayme, já estou lhe seguindo. Beleza pura!
Parabéns pela iniciativa. Abraço.

Ery Roberto Correa on 08/05/2009 19:33:00 disse...

Letícia, tudo poderia ter sido resolvido de forma mais amena. Reconhecer e pedir desculpas não dói, seja de qual lado for. Foi tudo uma pena. Às vezes somos tão maduros para coisas complexas e tão inexperientes para coisas pequenas. É assim mesmo. Aprendemos todos e sempre.
Abraço.

Ery Roberto Correa on 08/05/2009 19:51:00 disse...

Dora, fiquei com receio que você lesse meu post anterior, sobre a dificuldade de leitura de poesias. Nem preciso dizer que as suas são perfeitas e nelas a gente se sente envolvido desde o primeiro verso. Isto faz com que nos sintamos dentro dela e, assim, tenhamos todas as condições de tecer comentários. Mas tem muita coisa por aí que é difícil.

Quanto ao que perguntou posso lhe responder com tranquilidade absoluta: o que está fazendo não é plágio. Até ao comentar já está dizendo de quem é o trabalho original. É salutar usarmos aquilo que gostamos, que nos identificamos e citar a autoria. Podemos até mostrar a nossa interpretação, isto é natural, até reescrever ou repetir frases, mas tudo fica esclarecido quando durante ou ao final se abre a informação que foi escrito "com base na obra tal, de fulano" ou "esta é minha versão do texto tal". Ou até ser mais direto: "reproduzi, parodie aqui, o texto de fulano de tal. Há também o recurso de colocar em negrito, itálico, entre aspas e esclarecer isto. Se possível dar o link. Nada demais.

O incorreto é deixar entendido que se trata de algo da gente por não citar absolutamente nada.

Mas, veja, reputo que muita gente faz isto uma vez ou outra por absoluta despretensão. Leu, copiou para guardar, esqueceu de anotar o link, depois não acha, mas mesmo assim é possível fazer referência. O duro é se tornar contumaz e passar a fazer da atitude uma forma própria de blogar.

Enfim, cada um deve saber o que faz, né?

Sobre não ter aparecido com mais frequência no seu blog, querida Dora, me perdoe, isto está acontecendo com quase todos os que eu visitava em outras épocas. É falta de tempo mesmo. Mas corrigirei a falha a qualquer custo. Vai ver.

Beijão.

jayme on 08/05/2009 20:27:00 disse...

Ery, um tanto fissurado na novidade twitteriana, mal parei para ler o post, muito menos para comentar. Agora, cessado o esbaforimento, e com as devidas desculpas, digo o seguinte: para o bem, a tal 2.0 traz a democratização do megafone, a tribuna geral, o extra-extra editado pelo garoto, e não mais só pelo dono do jornal. Vantagem: exercita-se a liberdade de expressão. Para o mal, traz o anonimato ou a cara-de-pau. Há quem tema até que o amadorismo e o plágio contaminem a produção intelectual e a literária de tal forma que o saber humano ficaria sob risco (há até um livro sobre isso, cujo nome, blogueiramente, me escapa). Visitei um dos blogs denunciados: é exclusivamente copy-paste, não há um texto sequer escrito pelo dono do blog. Ele poderia explicitar isso já na abertura, mas não o faz. Precisaria fazer? Essa é a questão: a rigor, não. Blogues são algo que transita entre o diário pessoal -- o blogue do dito plagiador, por exemplo, parece mais com os antigos cadernos que as meninas usavam para colar papéis de bala, recortes de revista e bilhetinhos -- e publicações de conteúdo mais criativo e original -- caso desta casa. Não sou apocalíptico, acho que o saber humano tem só a ganhar com as novas formas de comunicação, basta aprender a domá-las, como domou e se valeu da prensa de Gutemberg. Também acho que a grita do plagiado em questão é pertinente até certo ponto, depois cansa um pouco. Eu já tive sonetos rodando por aí em "blogs-colagem" de gente que nem conheço, mas nem por isso sou menos autor deles. Tenho certeza de que, se vc puser um trecho de um de seus bons textos no google, vai se surpreender com o número de "autores" que já estarão assinando uma obra sua. Autoria hoje é algo que se faz mais difuso, e se reafirma pela combinação de persistência com categoria. Abração, meu caro.

Dora on 08/05/2009 20:28:00 disse...

Ery. Li o post sobre a poesia...rs Entendo perfeitamente seu ponto de vista. Há pessoas que não me comentam, quando eu posto poema. E me dizem isso, como é o caso do meu amigo Francico Sobreira que, muito espirituosamente me falou num comentário de prosa: quando você escreve "prosa", é "prá mim", né? ! rs Enfim. Eu vou estender o pedido do Sobreira para você: quando eu esscrever "prosa", dedico a você, Ery...rs
Abraço grande!
Dora

Ery Roberto Correa on 08/05/2009 21:11:00 disse...

Jayme, acredito que nós sentimos exatamente da forma como você analisa porque não passamos por uma marcação daquela típica de algumas partidas de futebol, o "homem a homem". Foi o que entendi que esse menino estava tendo. Parecia que foi eleito para ser provocado.

Não sei como reagiríamos, mesmo praticando um comportamento mais tolerante, se alguém a partir de hoje passasse a copiar nossos textos em sequência. Acredito que, no mínimo, estranharíamos.

Também entendo como correta sua avaliação sobre a 2.0, é exatamente isto que ela nos mostra. De qualquer maneira, mesmo que nos adaptemos às parafernálias da tecnologia e suas novas rotinas em nosso cotidiano, criando sobremaneira um novo modelo de relações e de vivência com as coisas do dia-a-dia, até as banais, continuamos ortodoxos relativamente a alguns valores que estão fincados na personalidade. Normal, não é fácil se adaptar rapidamente a tudo isto.

Entendo que a grita pode ter sido um tanto exagerada. Mas cada um sente à sua maneira.

No lugar do garoto eu teria parado de escrever por um curto período, aderido aquele serviço que você agora pode clicar ao final da coluna direita neste blog, e pronto. Aliás, vale a pena. Dê uma olhadinha. Feita a assinatura, ele passa a relacionar em um arquivo tudo que você posta, com os detalhes, inclusive data. É uma forma de proteger.

Sei lá, ainda acho que nem é uma questão de dizer "isto é meu", acredito que tenha mais relação com valores naturais de respeito de terceiros ante o que é seu. Não confundamos nada disso com orgulho.

Você deu um fecho perfeito: "se reafirma pela combinação de persistência com categoria". É vero!

O serviço "MyFreeCopyright" é um exemplo que a tecnologia cria também "vacinas" contra seus próprios vírus.

Abração mestre!

Ery Roberto Correa on 08/05/2009 21:14:00 disse...

Dora, não sei se lembra, mas já comentei certa vez que sua prosa é o poema mais lindo que já li. E foi exatamente por esta dificuldade que tenho em comentar poesias. Foi verdadeiro o que eu escrevi.

Vou conhecer o Francisco Sobreira e dizer que agora ele tem um sócio (rsrsrsrs).

Bom final de semana, feliz Dia das Mães. Beijo.

Brunno Soares on 10/05/2009 01:32:00 disse...

Olá Ery, como vai?!

Antes de tudo agradeço pelo post gentilmente dedicado a minha pessoa e, acima disso, a nobre causa na qual muitos estão se engajando pela blogosfera.

Hoje eu fui vitimado. Ontem foi fulano, amanha pode ser o João, a Maria... o plágio fere! Dói.

Ainda que eu não escrevesse, ainda que eu muito escrevesse nada adiantaria - a sensação é amarga.



O 'doce' que extraio disso tudo se traduziu em sua últimas palavras.

Meu sincero Obrigado.
abraços

Aidinha on 11/05/2009 02:43:00 disse...

Oi Ery

Seu texto é esclarecedor e, como sempre, perfeito.
Em toda a parte, temos gente boa e gente que não presta.
Creio que certo mesmo, se não temos outra ferramenta á mão, é fazermos o que voces fizeram com a tal plagiadora: pressão nela,sem dó.
Viu como ela foi embora, como você diz “pela porta dos fundos”, apesar do apoio do calhorda do marido?
Quero que alguém me explique, por que ele se deu a esse trabalho.
A força maior está com este grupo grande e aqui, neste mundo virtual, temos liberdade de ação, sempre, queiram esses malucos, ou não!
Mas nós, que aqui nos comportamos com toda ética e boas maneiras, temos sempre mais força, podemos reagir quando alguém se comporta
indignamente, que sairemos vencedores.
Você fala da dificuldade de registrar as obras em cartório e até em cartórios ilegítimos
(barbaridade!), mas eu aconselho sempre a essas pessoas que escrevem,a registrarem seus trabalhos na Biblioteca Nacional.
Dá só um pouquinho de trabalho, mas não custa nada, é free.
Vamos ficar espertos para evitar esses aborrecimentos.
Amanhã mesmo vou registrar uma bela frase que hoje me surgiu, - antes que algum aventureiro lance mão dela. - É a seguinte: - “Penso, logo existo.” rsrrsrssr

Viu? Gostou?

Um grande beijo para você e para todas as mães, suas seguidoras e para as que você tem na sua família, pelo dia de ontem.

Com carinho,

Aidinha

Aidinha on 11/05/2009 03:20:00 disse...

Ery

ET. quando falei em Biblioteca Nacional, estava falando em um registro feito diretamente lá, sem pensar nessa Agencia Internacional que para mim, nunca foi um obstáculo, mas apaguei o comentário anterior e fui no Google dar uma olha sobre ela, que existe desde a década de 70, mas nada foi mudado conforme o que achei lá agora.

Amanhã, tento uma pesquisa sobre o assunto.

beijo

Aidinha

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