2009 - Ano IV
Posted at 02:56
Denise Rangel tem um blog espetacular, carinhoso com a natureza. Para comemorar o Dia Mundial dos Oceanos - 08 de junho - segunda-feira próxima, o Faça sua Parte faz um convite: blogar contando uma história pessoal relacionada ao mar. Será "um mar de histórias".
Como já escrevi esta história, participando desta bela iniciativa repito aqui o post publicado em outra versão do Infinito Positivo.


Ponta da Areia - pintura de Sídney Lacé"Esta chuva fria do sul da América não tem as rajadas impulsivas da chuva quente
que cai como um látego e passa deixando o céu azul.
Pelo contrário, a chuva austral tem paciência e continua sem fim, caindo do céu cinzento".
[Pablo Neruda in Confesso que Vivi - Caderno I - Infância e Poesia]
Se tivesse que descrever meu avô materno, o velho Eleutério Lopes, diria que era ousado e teimoso como um Odorico Paraguaçu, o personagem de Dias Gomes para Paulo Gracindo. E sem exageros, ele guardava certa semelhança física com aquele prefeito caricata de O Bem Amado.
Foi um homem do mar, um velho vigoroso e cheio de coragem. Minhas lembranças da infância estão repletas das cenas de discussão entre minha avó e o grande navegador.
– Hoje não Leotério. Vai chover muito!
Plantava suas lavouras e morava além da baia de Paranaguá, ao norte, provavelmente a 35 ou 40 milhas náuticas do grande porto. Navegava calmamente em seu barco, um bote de aproximadamente 20 pés de comprimento, o "Sete de Setembro", pelas curvas do rio Serra Negra, roçando as bordas nos maduros pirizais[1] até alcançar a barra próxima da Ilha Rasa e então enfrentar a baia.
Era enternecedor olhar aquela figura folclórica de pés descalços, boné, calça arregaçada até os joelhos, um pé no leme e corpo debruçado sobre a casinha do motor de centro, vencendo os vagalhões da baia traiçoeira, cantando hinos do Cantor Cristão[2] ou contando piadas para um eventual acompanhante.
Certo dia chegou minha vez de ser o parceiro de empreitada. Tinha 11 anos. Carregamos o barco com laranjas para trazer ao mercado da cidade. A viagem de quatro horas foi preparada com esmero e as costumeiras broncas da vó Luiza, a meteorologista das viagens do meu avô.
O dia prometia ser calmo e a manhã se abria em ótima perspectiva de navegarmos com tranquilidade. Acordei mais cedo do que de costume. Vesti a calça curta, guardei uns trocados ganhos da vovó, calcei-me e fiquei esperando o velho alimentar as criações. Quando ele chegou o café já estava servido. Lembro de ter tomado o primeiro corretivo naquele tom grave e ameaçador:
– Ô "Breguendém"[3], para de comer porque depois vai me dar trabalho e eu não sei fazer chazinho enquanto navego!
Era um recado bem decodificado, prevendo eventuais desastres em casos de eventuais náuseas.
Despedimo-nos e partimos. Por entre as curvas daquele saudoso rio era possível ver o clarão do dia amanhecendo. O barco rasgava o rio e sua marca se abria até as margens, onde já eram visíveis alguns bancos de areia que denunciavam o progresso da maré vazante, condição que ajudava a descer em menor tempo.
Protegido por um salva vidas eu ia sentado sobre a casinha do motor para poder ouvir melhor o meu avô. Contava histórias e ensinava os segredos me pedindo atenção para quando chegássemos à barra e adentrássemos à baia. O tempo resolveu mudar e o aviso foi um vento forte e quente que o velho já conhecia de muitas travessias.
– Este danado é noroeste, meu filho! Desça daí e vá puxar a cobertura daquelas coisas que estão na proa.
Antes que eu pronunciasse que já estava com medo ele me ajudou a sair de lá e fui cumprir a ordem. Estendi a lona plástica e sobre esta uma outra, do tipo encerado, por cima dos sacos de farinha que tinham proteção inferior e resolvi ficar ali mesmo, escondido do vento que já fazia o "independência" balançar e me dar enjoo. Durou pouco.
__Breguendém, volta pra cá! O serviço não acabou seu covarde!
Minha próxima tarefa era operar a bomba de sucção para retirar a água do barco em caso de chuva. Ou, se não fosse aprovado no ofício, segurar o leme enquanto ele providenciava as bombeadas. Juro que não me agradava nem uma coisa nem outra, mas era proibido fazer corpo mole com o meu Paraguaçu.
– Você já olhou para sua direita?
Óbvio que ali, no meio do mar, eu ainda não sabia decifrar o grave efeito daquela enorme nuvem negra que só me trazia medo. A tempestade avançava em nossa direção, o que prenunciava a minha estréia naquela bomba. O velho desceu da popa, adentrou na casinha do motor e pareceu ter dado cordas naquele treco.
Percebi que seu semblante havia mudado e a conhecida mania de ficar calado ante dificuldades, como num estratagema de máximo respeito, já era visível. Navegávamos em plena baia. Buscar a costa para nos abrigar levaria mais tempo do que chegar ao destino e a ordem era enfrentar. Fui amarrado pela cintura para maior segurança e não parava de bombear. O barco, mesmo com um bom motor, me parecia à deriva e seu comandante, às vezes, me mandava segurar o leme para que com sua maior força e prática assumisse a tarefa de esgotar.
Tive a impressão que lá no convés o estrago estava feito. Se acaso não tivesse bem feito o serviço das coberturas, a farinha já teria se transformado em pirão. Brigamos com os vagalhões e a chuva torrencial por algum tempo, mas o velho homem do mar inspirava confiança porque fazia todo o necessário no mais perfeito silêncio. Estava acostumado das tantas vezes em que viajou solitário. Parecia dominar a situação e dava certeza que a revolta de Proteus era passageira.
Eram quase dez horas da manhã, mas ali parecia ter anoitecido outra vez. Quando avistamos as primeiras boias próximas ao canal do porto e algumas luzes piscaram, o semblante do velho refletia alívio.
– Escapamos Breguendém! Aquela danada da tua avó nunca navegou na vida, mas não dá para duvidar do que ela fala!
– Mas vovó nunca andou de barco? E como ela foi parar lá? O senhor a levou de avião?
Entre risos e um olhar ameaçador, com dedo em riste, ele me disse:
– Breguendém, você não vai contar pra ninguém, nem pra ela! Eu me borrei!
Rimos por bom tempo. Ele me deu outras ordens quanto a segurar o leme na direção certa, apontando a proa para a direção de um edifício que já aparecia bem lá adiante. Disse que ia resolver aquela merda que o estava incomodando. Por uns instantes me senti o almirante. Tirei um sapato para imitar o velho. Aquele barco me obedecia e eu comecei a cantarolar uma das canções preferidas do meu avô.
Quando retornou, com a bunda lavada com água salgada e a calça trocada, por conta própria fui conferir a farinha lá na proa. No meio do percurso tive tonturas, sentei sobre a carga de laranjas e comecei a "devolver" o café da manhã. O velho me olhava, tossia e rachava de rir. Com a cabeça balançando sentenciou:
– Breguendém, você tinha ido bem até agora! Estragou seu batismo num dia escolhido a dedo pela sua avó.
Cheio de razões, retruquei:
– É verdade, mas o velho comandante, o rei da baia (que era como ele gostava de ser chamado) também tremeu. Lá dentro tem uma calça borrada que não me deixa mentir.
– Breguendém, você não conta nada pra ninguém e eu também não conto que você azedou as laranjas. E se vendermos a farinha eu te compro dois livros de presente. Está comigo ou está sem migo?
– To comigo!, respondi sorridente.
Fiz o resto da viagem rezando para que não tivesse pirão naquele saco branco. Levei sorte.
É a primeira vez que conto esta história. Hoje senti saudades do vovô.
Grande Eleutério! Eu o amei demais. Sempre penso que continua navegando em outros mares, bem longe daqui...
[1] - Piri ou Cyperus giganteus - espécie vegetal, que habita pequenas lagoas e/ou solo seco, espécie de anfíbia. Utilizada na confecção artesanal de esteiras.
[2] - Hinário utilizado por algumas igrejas evangélicas.
[3] - Breguendém - termo para o qual nunca encontrei significação, apelido que me foi presenteado quando criança pelo meu avô. Os habitantes ribeirinhos, em qualquer região brasileira, também inventam muitas palavras.

[UPDATE | 06.06.09 - 11:49] - No comentário #1 a Denise Rangel esclarece que o blog Faça sua Parte é feito em equipe e a ideia do "mar de histórias" veio da mente brilhante da Lucia Malla, uma das fundadoras do grupo.











20 comentários:
Ery, que história, hein! Nota dez! Cheia de emoção e nostalgia e que te deu a dimensão exata do poder e da fascinação do mar. Obrigada por participar de nosso "mar de histórias".
A propósito, o Faça a sua parte é trabalho de uma equipe: http://www.verbeat.org/blogs/facaasuaparte/quem-somos.html, e a ideia do mar de histórias veio da mente brilhante de nossa querida Lucia Malla (http://www.interney.net/blogs/malla), uma das fundadoras do grupo.
O link dos participantes estará no post, na segunda, dia dos Oceanos.
abraço, garoto
@Denise, correção feita no UPDATE.
Nunca esquecerei esta história, gosto muito dela. Foi o momento mais emocionante que passe junto ao meu querido avô.
Sua história é fabulosa... Me fez rir, e me pôs lágrimas nos olhos também.
Pôxa Ery, estou sem palavras, imagino a saudade que vc sente.
Um abraco e uma linda semana
Ery,
passei no F.Cals e ví envergonhado que esquecí de dois anivwersários importantes. O dele (já devidamente corrigido) e o de seu pai, também Don Fernando. Quando estiver com ele, leve meu abraço atrasado.
Abraço forte, breguedém!
Aqui em casa todo mundo gosta do mar.
Que história deliciosa e emocionante, me senti navegando no meio da tempestade com vocês...
Abraços.
Oi Camila! Suas reações são parecidas com as minhas quando lembro do meu avô e desta história. Grato pela visita.
Georgia, meus avós me proporcionaram muito dos melhores momentos da vida, tanto através dos seus ensinamentos quanto daquilo que proporcionavam nos momentos mais felizes.
Outro abraço, bela semana pra ti.
Valter, agradeço por sua lembrança. Na próxima oportunidade que falar com ele entregarei seu abraço. Lá estive no dia 30, festejando os 83 anos bem vividos e saboreando aquele famoso peixe ao molho de camarão, exclusividade da casa.
Abração.
Daniel, quem é do mar não enjoa!
Obrigado pela visita.
Olá Maria Augusta, felizmente o velho Eleutério tinha intimidade absoluta com o mar, sabia domar a embarcação e nós passamos ilesos. Apesar de toda sua experiência, eu admirava um comportamento em meu avô: ele respeitava tanto o mar que por vezes sentia medo. Jamais o desafiava. Era sábio.
Meu abraço.
Meu quERYdo amigo de sempre...
Que negócio é esse de me fazer chorar justamente num dia corajoso desses?rsrs..É choro bom, de emoção pura, meu amigo. Você a Confiança. Sei que esse caminho é de mão dupla. Também estarei sempre "por perto" de você. Sempre.
Beijão, meu lindo.
Ery,
sabemos que família é uma fonte inesgotável de aventuras, encontros, desencontros e afetos. E quando há um avô como o seu, abençoando tudo, acontecem coisas mágicas, como esse texto. Parabéns, tá lindo!
Beijo da
Vivina.
Cris, ando com as emoções à flor da pele. E acho que isto é um pouco do "viver perigosamente", mas nunca negarei que vale a pena. Demais. Beijão.
Vivina, este texto é meu xodó porque foram poucas as lembranças da infância e adolescência sobre as quais já escrevi. Esta tem a riqueza de detalhes que permanecem vivos demais pra mim, como se tivessem acontecidos ontem.
Incrível, escrever é também reviver, não é?
Olha, vindo de você, doce amiga, o elogio parece prêmio.
Beijos.
Bonita volta ao passado, Ery. Vai lá com mais frequência e retorna com outras histórias como esta. Nós, teus leitores, agradecemos.
Um abraço.
Ery, você é um grande contador de histórias. Quantas mais vierem melhor, meu caro.
Jens, é uma sugestão difícil de não ser acatada. Na medida do possível farei esta viagem memorialista outras vezes. Grato pelo teu apoio. Abraço.
Jayme, fica muito mais fácil quando a gente escreve sobre emoções vividas e que jamais perderam lugar nas lembranças.
O "de_minimus" continua um belo porta jóias, sempre uma nova pérola. Parabéns.
Abraço.
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